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Recomendação de leitura para a quarentena pelos vencedores do Prêmio IPL

13/04/2020

Recomendação de leitura para a quarentena pelos vencedores do Prêmio IPL
Marilena Nakano, organizadora da Rede Beija-Flor, na cerimônia do Prêmio IPL 2019

A Plataforma Pró-Liro aderiu à #fiqueemcasa e, em nome do IPL, convidou vencedores do Prêmio IPL Retratos da Leitura para fazer recomendações de leitura literária para a quarentena. 

 

A primeira sugestão vem de Marilena Nakano, organizadora do projeto Rede Beija-Flor. A Rede Beija-Flor atua no campo do direito à literatura, como direito humano fundamental de todos. Incentiva a criação e disseminação de pequenas bibliotecas vivas enraizadas em territórios vulneráveis de Santo André. O desafio: agir para fazer das bibliotecas, comunitárias, públicas ou escolares, lugar de encontro de pessoas, consigo mesmo, com o outro, com outros mundos. Veja o que ela disse:

 

Aos 72 anos me vejo em isolamento social diante de uma pandemia causada por um ser invisível. Jovem, vivi a ditadura, forçada a um isolamento dentro de uma cela na prisão. Forçada a compreender o que é isolamento com parte da família exilada, com amigos presos. Adulta, exilada em tempos de democracia por denunciar crime político. Enfim, idosa, carrego comigo um repertório de isolamento.

Diferente das guerras em que há pelo menos dois lados, visíveis e concretos, hoje nosso opositor é invisível, um vírus. Mas, em torno dele trava-se luta insana no campo político revelando posições e formas de governar não apenas diferentes, como é num mundo democrático, mas divergentes e tendo no centro a disputa de vidas de seres humanos.

Alguns, em nomes de seus projetos revelam ter perdido a humanidade. Olham para o mercado e consideram que ele ainda é a solução, mesmo que descarnado.

É nesse contexto que a literatura me habita. Às vezes como refúgio, forma de ocupação do tempo. Outras, busca de compreensão do que vivo. Idosa, volto ao passado para ter pistas que me permitam entender um pouco o presente. Só um pouco. Levará tempo para possamos compreender de forma mais clara o momento atual.

A força dos tempos atuais me faz revisitar o passado. Volto à década dos 90. Releio “Cisnes Selvagens” de Jung Chang. Um emaranhado de sentimentos me toma de novo. Chang, chinesa de nascimento, hoje com 68 anos. Habitando Londres desde jovem, penso nela, e como estará vivendo este momento. O que ela escreverá sobre as experiências atuais?

Por ora, me contento com o que escreveu em “Cisnes Selvagens”. Ela me faz entrar novamente na China. Uma China que me habitou na juventude. Acreditava na revolução cultural conduzida por Mao Tsé Tung. Ele era meu mito. Como muitos brasileiros, na atualidade, que têm um mito, eu também tive o meu. A duras penas aprendi que ter um mito como farol significava percorrer caminhos sobre os quais não me era permitido pensar, sentir, apenas ser conduzida. 

Quando vejo pessoas indo atrás do “mito” nas ruas de nosso país, sem pensar sobre as reais dimensões da pandemia que vivemos, sou tomada por sentimentos de raiva, de pena, de impotência...

Essa é a beleza e a dureza da obra de Chang. Ela, ao escrever de forma biográfica, a história de três gerações de sua família, da avó, da mãe e dela mesma, me faz percorrer os caminhos da história de uma China que eu não conhecia na juventude, mas idolatrava, e que na idade adulta fui capaz de criticar. A obra dela me ajudou nesse sentido. Hoje, talvez eu tenha que percorrer um outro caminho. Entender o que vive e como se sente o povo chinês em tempos de coronavírus.

Começando pela vida de sua avó, na China tradicional, Chang revela como às mulheres não era permitido querer e decidir. O casamento era definido pelos pais. Quanto menor os pés, mais bonitos eram. Pés amarrados, até sangrarem, acompanhado de muito sofrimento, para que a mulher pudesse ser bela.

Se por um lado, Chang revela essa face sombria da China tradicional, pela história de sua avó, há elementos em sua narrativa que permitem verificar que as sociedades não são totalmente homogêneas. Daí a possibilidade de mudança. Ares suaves permeiam sua vida de menina. O avô, do segundo casamento de sua avó, é quem traz um pouco de leveza à sua infância. Sua sabedoria ajuda a atravessar essa fase.

 

Por meio da história de seu pai, traz o compromisso com a Revolução Chinesa. Revolução que se faz contra a corrupção e banditismo. E com ela um rigor exacerbado no cumprimento das tarefas definidas pelo Partido Comunista. Mas também ele não é personagem sem contradições. Amante dos livros deixa entrar outros ares na vida de Chang. Ao escrever sobre o seu compromisso com a revolução, seguindo as pegadas de seu pai, membro do partido comunista chinês, me fez entrar nos horrores produzidos na

China num processo conduzido por Mao Tsé Tung. Um líder que em nome da causa optou por privilegiar o aço ao invés da produção de alimentos que permitia ao povo sobreviver. Para ele tratava-se de dar o “Grande salto para frente”, industrializando a China. Assim, contribuiu decisivamente para a morte de milhões de chineses, em função da fome. A dominação se fez presente de forma impressionante.

Hoje, em nosso país, há a disputa entre ficar em confinamento para não morrer ou trabalhar e circular livremente porque a ausência do trabalho mata a economia do país. O livro me faz mergulhar nessa reflexão. O passado de um povo me puxa para o presente no país onde moro. É a literatura se fazendo viva.

Chang não para aí. Desvela pela sua história e envolvimento os horrores da Revolução Cultural chinesa depois do fracasso do “Grande salto para frente”. Era preciso dominar. Corações e mentes. Lendo a narrativa penso hoje que há uma disputa cultural em andamento para que a dominação se faça de forma brutal, mesmo que sem o uso da força física. Impede-se que se pense. Discrimina-se o diferente. Nega-se a ciência.

Nesse contexto, o Partido Comunista faz parte da narrativa. Produzido verticalmente. Com mecanismos de dominação que existem até os dias de hoje. Com benesses para os seus dirigentes e cargos superiores. Contraditoriamente, esta será a alavanca para Chang sair de seu país e viver outros ares. Ares que lhe permitiram revisitar a história de três gerações de sua família, incluindo a dela própria. É nessa narrativa que ela traz a história da própria China, de parte do século 20.

Enfim, reler “Cisnes Selvagens”, me faz olhar para pandemia de forma mais alargada. Não se trata de buscar culpados para o que vivemos. Trata-se de ter discernimento para compreender o vivido. Trata-se de nos posicionarmos, pelo menos, contra mitos, contra a defesa do pensamento mágico em detrimento da ciência, contra manipulações que desejam fazer de nossos corações e mentes.

“Cisnes Selvagens” de Jung Chang permite-me pensar sobre o que vivi e o que vivo hoje. Recomendo fortemente.

 



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