A leitura vai muito além do entretenimento. Ao acompanhar narrativas, personagens e conflitos, leitores e leitoras são convidados a vivenciar perspectivas diferentes, exercitando a empatia e ampliando a compreensão sobre emoções, dilemas e relações humanas complexas. Especialmente na literatura de ficção, os livros funcionam como verdadeiras simulações da vida real, oferecendo um espaço seguro para explorar sentimentos profundos e desenvolver a inteligência emocional.
Nesse “laboratório emocional”, é possível experimentar emoções difíceis — como tristeza, medo, frustração, traição ou luto — sem as consequências da vida concreta. Esse processo contribui para a construção da resiliência emocional e para o aprimoramento da capacidade de lidar com os próprios sentimentos e com os sentimentos do outro, favorecendo conexões mais genuínas e a resolução de conflitos.
Além do impacto subjetivo, a leitura desencadeia efeitos mensuráveis do ponto de vista neurocientífico. Estudos indicam que o ato de ler pode reduzir significativamente os níveis de estresse, ajudar na regulação da ansiedade, ampliar o foco e fortalecer o raciocínio cognitivo. Pesquisas conduzidas pela Universidade de Sussex apontam que a imersão em uma boa história pode diminuir o estresse em até 68%, ao concentrar a mente no presente da narrativa e reduzir a ruminação excessiva sobre o passado ou o futuro.
É importante destacar que, embora a leitura seja amplamente utilizada como prática complementar em processos de bem-estar — inclusive no campo da biblioterapia —, ela não substitui tratamentos profissionais em casos de transtornos severos. Ainda assim, seu papel como aliada da saúde emocional é amplamente reconhecido.
Apesar desses benefícios, o gosto pela leitura não é algo inato. Ele se constrói ao longo do tempo, por meio de experiências positivas, consistência e criação de rituais que tornem o ato de ler prazeroso e significativo. Em um contexto marcado pela multiplicidade de estímulos e distrações digitais, estimular o hábito da leitura se torna um desafio central.
Essas reflexões estiveram no centro dos debates do Seminário Retratos da Leitura no Brasil, promovido pelo Instituto Pró-Livro, realizado em dezembro de 2025, no Itaú Cultural, em São Paulo. O encontro reuniu pesquisadores, educadores e especialistas para discutir caminhos possíveis diante dos dados da 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, coordenada pela socióloga Zoara Failla.
Pela primeira vez desde o início do levantamento, o número de não leitores superou o de leitores no país: 53% contra 47%. O dado acende um alerta e reforça a urgência de políticas, práticas culturais e estratégias que promovam o acesso ao livro e o prazer pela leitura.
Como desdobramento dessas reflexões, foi publicado o artigo “Como despertar prazer nos livros”, na Revista Educação (edição nº 318), que retoma e aprofunda questões centrais a partir do texto de Rubem Barros, apontando a valorização da literatura, o contato com diferentes linguagens artísticas e práticas culturais como caminhos fundamentais para a formação de leitores.
O texto também dialoga com reflexões do escritor Sidnei Alves, ao destacar que a leitura, quando vivida como experiência e não como obrigação, pode se tornar uma poderosa aliada no desenvolvimento humano, emocional e social.





